terça-feira, 1 de outubro de 2013

Consumo de vinho no Brasil dobra em dez anos

Percebendo que o mercado ainda tem muito que crescer e a fim de atrair novos consumidores, os festivais de vinho tomam conta do estado e atraem mais adeptos

A bebida da celebração. É assim que o vinho é visto desde sempre pelos povos. Na mitologia grega e romana representado, respectivamente, pelos deuses Dionísio e o festeiro Baco, e protagonista de um dos principais milagres bíblicos, quem nunca ouviu a passagem em que Jesus Cristo transforma a água em vinho em uma festa de casamento?, a bebida tem papel de destaque (até hoje) em diversas cerimônias, independentemente da sua classe (de mesa ou espumante) ou cor: tinto, rosado, branco. Mas esta concepção está mudando. Rico em história e cada vez mais associado à saúde, o vinho começa a ganhar consumidores usuais em países em desenvolvimento como o Brasil, a exemplo do que já acontece no velho mundo.

Pesquisa recente realizada pelo Instituto de Assessoria Mercadológica & Mercadométrica (IAM&M) mostra que em dez anos, de 2002 a 2012, o consumo de vinhos dobrou de volume no país, passando de 81 milhões de litros para 176 milhões de litros, uma média de crescimento de 8% ao ano. O consumo per capita (por habitante) também acompanhou o ritmo, saltando de 0,71 litro para 1,26 litro por ano, no mesmo período, aproximadamente 7% ao ano.

O levantamento relaciona, ainda, o crescimento econômico à “descoberta” do vinho pela nova classe média. O consumo pelas classes C e D cresceu 23,8%, alcançando 0,52 litro per capita. Contudo, o consumo das classes A e B ainda é superior, com crescimento de 57%, passando de 1,82 para 2,85 litros por pessoa. Já o Sudeste é a região que mais consome, representa cerca de 60% do consumo brasileiro, mais que o Sul (25%), que detém a maior parcela de produção vitivinícola nacional.

O niteroiense Leonardo Carvalho, de 46 anos, faz parte dessa “nova” parcela de consumidores que cresce no País. Ex-aluno da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), ele consome a bebida quase que diariamente. O interesse surgiu dentro de casa.
“Via meu tio bebendo aquele vinho de garrafão e sempre tive interesse em aprender mais sobre a bebida. Comecei a estudá-la em 2000 para entender o que estava tomando. Hoje, faço parte do grupo de degustação da ABS, que se encontra quinzenalmente. Gosto muito de história, e dá para contar a história do homem através da bebida, isso me atrai”, conta.

Leonardo destaca, também, a importância da desmistificação do produto. “Na Europa, o vinho é considerado um alimento, para a gente ainda é um evento, sinônimo de comemoração, isso se nota até pela garrafa, no novo mundo, elas são muito mais pesadas, robustas, enquanto no velho mundo são mais simples assim como seus rótulos”, contrapõe ele, que consome cerca de quatro garrafas por semana, o equivalente a três litros da bebida. A média nacional é de 1,9 litro por pessoa ao ano, segundo dados dessa indústria.

Assim como a maioria dos brasileiros, o enófilo (que curte vinho e não enólogo, especialista em técnicas de vinificação e produção) prefere o vinho tinto, apesar de achar o branco mais fácil de harmonizar. E, apesar dos benefícios à saúde apontados por diversas pesquisas, afirma que não bebe por causa disso, mas por uma questão de prazer.

“Tenho amigos que tomam religiosamente uma tacinha todos os dias por uma questão de saúde. Eu não. Gosto de escolher o vinho e harmonizá-lo com a refeição”, afirma Leonardo, cuja paixão pela bebida se faz notar pela adega de 200 garrafas, na qual armazena os chamados “vinhos de guarda” (que adquire, principalmente, em viagens) para consumir em ocasiões especiais, e outros para consumo imediato. E, fora dela, outros 120 rótulos aguardam espaço.

A onda dos festivais
Percebendo que o mercado ainda tem muito que crescer e a fim de atrair novos consumidores, os festivais de vinho tomam conta do estado. O Serra Wine Week, em Petrópolis, que termina neste domingo, é um deles. O evento anual já está em sua quinta edição e, no ano passado, movimentou R$ 500 mil. A expectativa para 2013 é de que as vendas aumentem pelo menos 20%.

“Este ano propomos aos visitantes ‘uma viagem pela origem do vinho’, um mergulho na história da bebida. Do velho mundo, selecionamos nove rótulos de países como França, Portugal, Espanha e Itália (a maioria tinto, um espumante italiano e um branco francês)”, explica o organizador do evento, Rogério Elmor.

Segundo Rogério, cada restaurante participante oferece, no mínimo, quatro rótulos, com exceção do japonês, que oferece dois devido à difícil harmonização. Rogério ressalta que não se trata de um evento gastronômico, apesar de alguns estabelecimentos criarem pratos especiais para o período, mas que pretende fomentar o enoturismo na região tendo como atrativo o preço.

“O objetivo é estimular o consumo de vinho e associar a cidade a esse consumo, que é favorecido pelo clima frio. O preço promocional é possível porque fechamos com um grande distribuidor e compramos em quantidade, repassando ao consumidor essa economia”, explica.
Com essa estratégia, o consumidor final consegue economizar até 45% em cada rótulo. Um bordô, por exemplo, sairá a R$ 49, enquanto seu custo no mercado é de R$ 80.

Outro evento que promete aumentar o consumo de vinho no estado é o Rio Wine and Food Festival, que acontecerá na capital fluminense entre os dias 7 e 13 de outubro. Trata-se de um projeto inédito que tem como objetivo impactar o carioca e atrair visitantes para a Cidade Maravilhosa através do vinho e da gastronomia.

O festival acontecerá em vários locais, de hotéis cinco estrelas a comunidades. Dentre as atrações está o movimento Rio Rolha Zero, em que restaurantes não cobrarão a taxa de rolha (o cliente pode levar seu vinho sem custo adicional). Outro destaque da programação é a Grande Prova Brasil, uma degustação às cegas, que apresentará ao mercado a qualidade e diversidade de rótulos produzidos no Brasil.
“Desde 1990, os vinhos brasileiros já acumulam quase duas mil medalhas conquistadas em concursos internacionais segundo a Associação Brasileira de Enologia (ABE)”, ilustra Sérgio Queiroz, um dos organizadores do evento.

O seminário Vinho & Mercado, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), dará enfoque empresarial à semana. Os principais nomes do mercado produtor e importador debaterão temas como marketing e vendas. Já a ABS participa com a realização de concurso para escolha do melhor sommelier do Rio de Janeiro. Farão ainda parte do evento degustações (entre elas de rótulos peculiares que não se encontram mais no mercado, como de um ‘Porto’ branco 1962), jantares harmonizados com a participação de grandes chefs e palestras temáticas.

Para Sérgio Queiroz, o Rio precisava de um evento desse porte, prova disso é o alto índice de adesão de lojas, bares, restaurantes e supermercados. Mais de 40 restaurantes já confirmaram participação.
“Não existe hoje no Brasil um grande evento de vinhos realmente voltado para o consumidor, ainda mais unindo não apenas vinho e gastronomia, teremos até vinho harmonizado com pizza, mas às outras formas de arte, cultura e entretenimento, como a associação de vinho e música popular e erudita brasileira, vinho e ópera, vinho e saúde”, informa.

O organizador observa que o festival é reflexo do crescimento do mercado no Brasil, da “popularização” do produto.
“Há oito, dez anos, apenas o núcleo rico das novelas bebia vinho, a Glória Menezes e o Tarcísio Meira. Hoje, temos Carminha, Tufão e Maxwell e a Grande Família degustando a bebida, que está presente em outros programas, como os que trazem, por exemplo, estudos relacionando vinho e saúde”, brinca.

Para Queiroz, essa “descoberta” recente da bebida pelo brasileiro se deve a uma questão cultural, visto que “o país ainda é um ‘bebê’ considerando-se a indústria milenar do vinho”. Na Europa, por exemplo, a bebida é tratada como alimento, o que contribui também para adoção de baixas taxas de impostos. “Lá é comum a criança ser apresentada ao produto diluído em água e açúcar”, lembra.

O italiano Giancarlo Pochettino, diretor de compras de alimentos e bebidas do Windsor Atlantica, em Copacabana, um dos estabelecimentos participantes do festival, destaca a adesão do restaurante do hotel, o Alloro, ao Rio Rolha Zero.

Ele, que mora no Brasil há mais de dez anos, reforça a grande evolução do país no mercado de vinhos nesse período. Mas também chama a atenção para os altos custos de importação, com os quais o preço do produto chega a triplicar, e destaca a importância de estar sempre atento à relação custo X benefício X qualidade. Nesse quesito, destaca a boa safra de vinhos nacionais.

“O público está mais exigente, conhecedor, mais apaixonado, mas também curioso, aberto a experimentar, conhecer vinhos novos, com isso o nível de conhecimento dos profissionais também cresceu”, atesta.
Que o diga o sommelier João Pedro Lamonica. Ele destaca a necessidade de o profissional estar atento a tudo o que acontece no restaurante, não apenas à bebida em si, mas à cozinha também. “O vinho traz lembranças, desperta os sentidos de quem consome, e cabe ao sommelier apresentar a melhor opção para aquele momento que ficará marcado. Saber receber bem é muito importante, outra coisa é que vinho caro, é o cliente que escolhe, o objetivo não é causar constrangimento. A missão do sommelier é conquistar e não afugentar o cliente”, define.

Cursos miram o mercado

Outra prova do crescimento do setor é a grande oferta de cursos. De olho no potencial do mercado de vinhos no País, a FGV lançou, em 2012, o curso de pós-graduação Wine Business – O negócio do vinho. De acordo com o coordenador Valdiney Ferreira, o curso de gestão é formado tanto por alunos que já têm um negócio, quanto por outros que pretendem abri-lo, e mais: 70% homens e 30% mulheres, com mais de 35 anos.
Ferreira explica que o curso abrange toda a cadeia de negócios do vinho, que se divide basicamente entre os produtores de uvas e vinhos; atacadistas: as importadoras e grandes empresas do setor; varejistas: lojas especializadas, supermercados, sites de venda e restaurantes; e os consumidores. Há ainda os negócios associados: divulgação, que envolve profissionais de assessoria de imprensa e marketing; consultoria, especialistas que atendem desde vinícolas a restaurantes; eventos, de degustação a festivais; área de ensino e pesquisa; e o enoturismo, turismo especializado.

“O Brasil ocupa, hoje, a 14ª posição no ranking dos países produtores e igual colocação entre os consumidores da bebida. Ainda é uma taxa baixa, mas crescente, e é justamente isso que atrai investidores. A importação também mais que dobrou em apenas oito anos, em 2012 o país importou 79,5 milhões de litros de vinhos finos, enquanto em 2004 foram 39 milhões de litros”, ilustra.

O que ainda freia o crescimento do setor, segundo ele, são os altos impostos de importação, circulação e outros. “O preço ainda é um fator de inibição. É um produto muito taxado, tanto que os produtores pedem há tempos uma revisão da política fiscal a fim de baixar os preços e estimular o consumo. Para se ter um ideia, o vinho que custa um euro chega à loja para o consumidor final brasileiro por R$ 10, um pouco mais, ou menos, dependendo do vinho, e no restaurante a R$ 12. Estima-se que uma redução de 30% possa gerar uma projeção de crescimento de 50% em quatro ou cinco anos”, diz.

O especialista enaltece o interesse brasileiro pelo mercado: “Apesar de não ser produtor, o Rio é hoje o segundo maior consumidor de vinhos, só perde em volume para São Paulo e vem atraindo empresas, principalmente ligadas à comercialização”.

Em relação à produção nacional, Ferreira ratifica que é possível encontrar vinhos com uma boa relação custo X benefício. “Um bom espumante nacional custa entre R$ 50 e R$ 100”, afirma.
E são os espumantes, os vinhos brasileiros que mais crescem. De 2004 a 2012, o consumo passou de quatro a cinco milhões de litros para quase 15 milhões. Enquanto o do vinho tranquilo (de mesa), se manteve entre 18 e 20 milhões de litros.

Outro curso mais tradicional voltado para o conhecimento da bebida é o da ABS. O diretor da entidade, Roberto Rodrigues, reitera o crescente interesse pela bebida, mas acredita que o mercado está em estagnação desde fevereiro devido à alta do dólar.

“O vinho ainda é considerado no país um produto supérfluo, de um segmento quase que de luxo, o que é um absurdo”, diz, ressaltando que a idade média das turmas caiu de 40 a 45 anos para 30 a 35 anos. “Também aumentou o interesse feminino. Há 20 anos, uma ou outra mulher frequentava o curso acompanhada do marido, hoje elas já representam dois terços das turmas”, acrescenta.

Rodrigues destaca o crescimento do setor de vendas pela internet no país, cuja estrutura de comercialização permite a oferta de produtos importados a preços mais baixos. Já no caso dos rótulos nacionais, ele atribui os altos preços, além dos impostos, à grande margem de lucro do empresário nacional e à falta de infraestrutura para comercialização.


Fonte: O Fluminense

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